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“Meu namorado é autista, e não precisa tanto de sexo. E agora?”

Karin Hueck

27/09/2019 04h00

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Amor sem sexo

"Olá, estou há três anos em um relacionamento com um rapaz Asperger (do espectro autista). Nesses três anos, aconteceram diversas idas e vindas, por falta de carinho, de sentimentos, de sexo. Como ele é Asperger, não sente necessidade das mesmas coisas que eu, neurotípica. Eu me anulei diversas vezes por saber desse problema que ele tem e as brigas sempre eram com um pedido meu para ele buscar ajuda profissional, o que não aconteceu e pelo visto nem vai. Eu o amo, é uma pessoa maravilhosa, mas acredito que meu sentimento tenha se transformado em algo mais pra amizade, pois com a falta de afeto, de sexo, de desejo da parte dele, meu sentimento é confuso. É difícil terminar essa relação, mas não quero viver sempre insatisfeita e infeliz. Existem vários casos de Asperger casados, com filhos, mas que buscam ajuda profissional para isso. Não sei o que fazer". Ass.: Neurotípica

Cara neurotípica,
Para não falar nenhuma besteira, resolvi consultar uma especialista. A Carolina Wegener, psicóloga que atende principalmente pessoas do espectro do autismo, me contou que a questão da intimidade e do contato sexual pode ser especialmente complicada para pessoas do espectro autista porque envolvem muita comunicação não-verbal – algo com a qual elas costumam ter dificuldade. "Sexo é uma forma de comunicação de altíssima complexidade. Não depende só de palavras. Tudo muda: o rosto da pessoa, o jeito que o corpo se mexe, o timbre de voz. Pode ser que ele não conheça todos esses tipos de interações", diz Wegener. Ela também me explicou que é comum que autistas sofram de alto grau de ansiedade ou de algum tipo de superestímulo dos sentidos. Para uma pessoa que tem o tato superestimulado, por exemplo, um abraço pode ser doloroso — mas não sabemos, claro, se esse é o caso do seu namorado.

De acordo com Wegener, terapia realmente seria o indicado para ele lidar com essas questões. Se ele se recusa a ir sozinho, vocês também podem ir juntos numa terapia de casal. "Mas uma coisa que é bom se atentar é que muitas vezes quem se envolve com pessoas do espectro acabam virando cuidadores dos parceiros. É bom prestar atenção nisso", diz ela. Suas queixas são todas justificadas, e todo mundo merece um relacionamento que envolva sexo e intimidade. Como você mesma disse, seu namorado parece ter muitas qualidades, além de ter um autismo de altíssimo funcionamento – mas tudo indica que o relacionamento vai precisar de acompanhamento profissional para ir para frente.

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Casar ou não?

"Saudações. Estou em um relacionamento há pouco mais de dois meses. Temos algumas diferenças, como gosto musical e gosto por bebida (eu não bebo), mas nos damos muito bem na cama. Somos pessoas maduras, por volta dos 50 anos. Eu nunca fui casado e sempre tive relacionamentos de curta duração, de no máximo 3 meses. Ela já foi casada e tem uma filha adulta e vive dizendo que não quer mais saber de casamento. Ela terminou um relacionamento de 5 anos em maio. Eu vivia de peguetes. Sinto que estou ficando atraído por ela e penso que ela também está correspondendo. Mas ela me diz que estou à vontade para fazer o que quiser, que não preciso dar satisfação. Quando ouço isso entendo que ela me vê como um passatempo e que também pode fazer o que quiser. O padrão de vida dela é bem melhor que o meu. Continuo com esse relacionamento, pois ainda está muito recente, ou parto pra outra?" Ass.: Pronto pra namorar

Caro pronto pra namorar,
Você e a sua namorada estão em momentos completamente opostos da vida. Você disse que nunca teve um relacionamento de longa duração, então deve imaginar como ela está se sentindo depois de terminar um casamento, não? Quando ela diz que você pode fazer o que quiser, ela provavelmente também está se incluindo nesse combinado, sim. Claro que você pode partir para outra, mas se, pela primeira vez em 50 anos você ficou com vontade de ter um relacionamento duradouro com uma pessoa específica, por que não ter um pouco mais de paciência? Dê mais um pouco de tempo para ver o que vai acontecer. Talvez ela precise de mais alguns meses para se decidir, mas pense pelo lado positivo: se tem alguém que sabe se relacionar sem ser com compromissos marcados a ferro e fogo, essa pessoa é você.

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** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.

Sobre a Autora

Karin Hueck é jornalista e escritora. Foi editora da revista "Superinteressante", colaborou para alguns dos maiores veículos do Brasil e tem 5 livros publicados.

Sobre o Blog

Se Conselho Fosse Bom é uma coluna de conselhos sentimentais, existenciais e práticos. Está com problemas no trabalho? Sua família te enlouquece? Não sabe se casa ou compra uma bicicleta? Mande as suas dúvidas para o se.conselho.fosse.bom@bol.com.br As respostas são 100% anônimas.

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